Terça, 05 Fevereiro 2019 15:38

Oitocentos anos depois, um novo abraço e um compromisso com a paz

 

Oitocentos anos depois do encontro entre Francisco de Assis e o sultão al-Malik al-Kāmil, o Papa que leva o nome do santo de Assis apresenta-se aos “irmãos muçulmanos” como um “cristão sedento de paz”. E, juntamente com o Grande Imame de Al-Azhar, assina uma Declaração destinada a marcar não só a história das relações entre o Cristianismo e o Islã, mas também a própria história do mundo islâmico. O Papa Francisco, inventor da expressão “guerra mundial em pedaços”, com esta viagem e este gesto se insere no caminho traçado pelos seus antecessores, dando um passo a mais.

Também São João Paulo II, a partir do encontro de Assis em 1986 – quando sobre o mundo pairava a ameaça nuclear que, infelizmente, se pressente hoje – envolveu líderes religiosos para reafirmar que as diferentes religiões devem promover a paz, a coexistência, a fraternidade. Depois de 11 de setembro de 2001, quando o fundamentalismo terrorista voltou à cena internacional de forma violenta, o ancião Pontífice polonês fez todos os esforços para extirpar justificações religiosas ao abuso do nome de Deus para justificar a violência, o terrorismo e a morte de homens, mulheres e crianças inocentes.

Bento XVI também percorreu o mesmo caminho ao longo de todo o seu pontificado. Em setembro de 2006, Papa Ratzinger disse aos líderes dos países muçulmanos: “É necessário que, fiéis aos ensinamentos das suas próprias tradições religiosas, cristãos e muçulmanos devem aprender a trabalhar juntos, como já se verifica em diversas experiências comuns, para evitar qualquer forma de intolerância e se opor a todas as manifestações de violência”.

Hoje, o Papa Francisco assinou um documento no qual não só se rejeita firmemente qualquer justificação para a violência cometida em nome de Deus, mas são feitas declarações importantes e vinculativas sobre o Islã e certas interpretações do mesmo. As palavras relativas ao respeito pelos fiéis de diferentes religiões, à condenação de toda e qualquer discriminação, à necessidade de proteger todos os locais de culto e ao direito à liberdade religiosa, bem como ao reconhecimento dos direitos das mulheres, constituem um empenho.

O “Documento sobre a fraternidade humana pela paz mundial e a convivência comum”, assinado na tarde desta segunda-feira (04/02) em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyib, não é apenas um passo fundamental nas relações entre o cristianismo e o islã, mas representa também uma mensagem com um forte impacto no cenário internacional. No prefácio, depois de ter afirmado que «A fé leva o crente a ver no outro um irmão a ser ajudado e amado», fala-se deste texto como «um documento elaborado com sinceridade e seriedade», que convida «todas as pessoas que carregam no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana a se unirem e a trabalharem juntos».

O documento se abre com uma série de invocações: o Papa e o Grão Imame falam «em nome de Deus que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade», «em nome da inocente alma humana que Deus proibiu de matar», «Em nome dos pobres», dos «órfãos e das viúvas, dos refugiados e dos exilados, de todas as vítimas das guerras» e «das perseguições». Al-Azhar em conjunto com a Igreja Católica «declaram que adotam a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento recíproco como método e critério».

Com o documento, «pedimos a nós mesmos e aos líderes do mundo, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para que se empenhem seriamente em difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz, para que intervenham, o quanto antes, para deter o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que vive o mundo de hoje».

Os dois líderes religiosos pedem aos homens de religião e de cultura, além dos meios de comunicação, para redescobrirem e difundirem «os valores da paz, da justiça, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum». E afirmam que crêem «firmemente que entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno há uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos assim como o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas».

Mesmo reconhecendo os passos positivos feitos pela civilização moderna, a declaração destaca a «deterioração da ética, que condiciona a ação internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade», que leva muitos a «cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico, ou no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego». O extremismo religioso e nacional, juntos com a intolerância «deram origem aos sinais de uma ‘terceira guerra mundial em pedaços’.»

Portanto o Papa e o Grão Imame afirmam que «as fortes crises políticas, a injustiça e a falta de uma distribuição equitativa dos recursos naturais – dos quais se beneficia apenas uma minoria de ricos, prejudicando a maioria dos povos da terra – geraram, e continuam a fazê-lo, um grande número de doentes, de necessitados e de mortos, causando crises letais das quais são vítimas vários países. … Diante de tais crises que levam a morrer de fome milhões de crianças já reduzidas a esqueletos humanos – por causa da pobreza e desnutrição -, reina um silêncio internacional inaceitável».

«É evidente o quanto seja essencial a família», assim como «o despertar do sentido religioso», especialmente nos jovens, «para enfrentar as tendências individualistas, egoístas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações». Os dois líderes recordam que o Criador nos «concedeu o dom da vida para custodiá-lo. Um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou manipular conforme seu agrado… Por isso condenamos todas as práticas que ameaçam a vida como os genocídios, as ações terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que sustentam tudo isso».

Além disso, declaramos «firmemente que as religiões não incitam nunca à guerra, não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo, e nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Essas calamidades são fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião». Por isso, «pedimos a todos para cessar de instrumentalizar as religiões a fim de incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego, e parar de usar o nome de Deus a fim de justificar atos de homicídio, exílio, terrorismo e opressão». O Papa e o Gão Imame recordam que «Deus, Onipotente, não precisa ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para terrorizar as pessoas».

A Declaração atesta que «a liberdade é um direito de cada pessoa: cada um possui a liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, sexo, raça e língua são uma sábia vontade divina». É da «Sabedoria divina» que «vem o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferentes. Por isso, se condena o fato de constringir as pessoas a aderir a uma certa religião ou a uma certa cultura, como também de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam».

Em seguida, afirma-se que «a proteção dos lugares de culto – templos, igrejas e mesquitas – é um dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e convenções internacionais. Toda tentativa de atacar os lugares de culto ou ameaçá-los através de atentados ou explosões ou demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma violação clara do direito internacional».

Recorda-se novamente que «o terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente… espalhando pânico, terror e pessimismo não se deve à religião – mesmo que os terroristas a instrumentalizam – mas é devido a acumuladas interpretações erradas dos textos religiosos, às políticas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão e de arrogância. Por isso, é necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do fornecendo dinheiro, de armas, de planos ou justificativas e também a cobertura da mídia, e considerar tudo isso como crimes internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial».

O documento afirma que «é necessário se comprometer para estabelecer em nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório do termo minorias, que traz consigo as sementes do sentir-se isolados ou de inferioridade».

Na Declaração se define «a necessidade indispensável de reconhecer o direito da mulher à educação, ao trabalho e ao exercício dos próprios direitos políticos. Além disso, se deve trabalhar para libertá-la das pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria dignidade. É necessário também protegê-la da exploração… Por isso, devem ser interrompidas todas as práticas desumanas e os hábitos vulgares que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem às mulheres de desfrutar plenamente de seus direitos».

Depois de reiterar o direito das crianças de crescerem num ambiente familiar, à alimentação e educação, os dois líderes afirmam: «É preciso condenar toda prática que viola a dignidade das crianças ou os seus direitos. É também importante vigiar contra os perigos aos quais são expostas, especialmente no ambiente digital, e considerar como crime o tráfico de sua inocência e toda violação de sua infância».

Enfim, «Al-Azhar e Igreja Católica pedem para que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, universidades e institutos de educação e formação». Esperam que a Declaração se torne um «símbolo do abraço entre Oriente e Ocidente, entre Norte e Sul».

Papa: religiões ajudem a família humana amadurecer itinerários de paz

O Papa Francisco participou do Encontro inter-religioso sobre a “Fraternidade Humana”, no Founder’s Memorial (Memorial do Fundador), onde proferiu o seu discurso. O Founder’s Memorial é um monumento nacional que comemora a vida, a herança e os valores do xeique Zayed bin Sultan Al Nahyan, fundador e primeiro presidente dos Emirados Árabes Unidos.

O Papa agradeceu ao xeique Mohammed bin Zayed Al Nahyan, e ao Grande Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib, por suas palavras, e também ao Conselho Muçulmano de Anciãos pelo encontro realizado antes na Grande Mesquita do xeique Zayed. Saudou cordialmente as autoridades civis e religiosas e o Corpo Diplomático.

“Permitam-me também um agradecimento sincero pela calorosa recepção que todos reservaram a mim e à nossa delegação. Agradeço também a todas as pessoas que contribuíram para tornar possível esta viagem e que trabalharam com dedicação, entusiasmo e profissionalismo para este evento”, disse Francisco.

Condenar toda forma de violência
“De ânimo reconhecido ao Senhor, aproveitei o ensejo do VIII centenário do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão al-Malik al-Kamil para vir aqui como fiel sedento de paz, como irmão que procura a paz com os irmãos. Desejar a paz, promover a paz, ser instrumentos de paz: para isto, estamos aqui”.

Segundo o Papa, hoje, para salvaguardar a paz, “precisamos entrar juntos, como uma única família, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a arca de fraternidade”.

“O ponto de partida é reconhecer que Deus está na origem da única família humana. Funda-se nas raízes da nossa humanidade comum, a fraternidade como «vocação contida no desígnio criador de Deus». Esta fraternidade nos diz que todos temos igual dignidade. Portanto, ninguém pode ser dono ou escravo dos outros”, frisou Francisco.

“Em nome de Deus Criador, é preciso condenar toda forma de violência, porque seria uma grave profanação do Nome de Deus utilizá-Lo para justificar o ódio e a violência contra o irmão. Religiosamente, não há violência que possa ser justificada.

Religiões: construir pontes entre povos e culturas
A seguir, o Papa manifestou seu apreço pelo compromisso dos Emirados Árabes Unidos de “tolerar e garantir a liberdade de culto, contrapondo-se ao extremismo e ao ódio”.

“A coragem da alteridade é a alma do diálogo, que se baseia na sinceridade de intenções”, disse ainda o Pontífice, ressaltando que em tudo isso a “oração é indispensável”, pois “ao mesmo tempo em que encarna a coragem da alteridade em relação a Deus, na sinceridade da intenção, purifica o coração de fechar-se em si mesmo. Quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar. Rezar uns pelos outros: somos irmãos! As religiões não podem renunciar à tarefa urgente de construir pontes entre povos e culturas.”

“Chegou o tempo de as religiões se gastarem mais ativamente, com coragem e ousadia e sem fingimento, em ajudar a família humana a amadurecer a capacidade de reconciliação, a visão de esperança e os itinerários concretos de paz.”

A paz precisa das asas da educação e da justiça
Segundo o Papa, “a paz, para levantar voo, precisa de asas que a sustentem: as asas da educação e da justiça. Investir na cultura favorece a diminuição do ódio e o aumento da civilidade e prosperidade”.

“A justiça é a segunda asa da paz. Uma justiça circunscrita apenas aos familiares, aos compatriotas, aos fiéis da mesma fé é uma justiça claudicante… uma injustiça disfarçada!”

“Que as religiões sejam voz dos últimos, que não são estatísticas, mas irmãos, e estejam da parte dos pobres; velem como sentinelas de fraternidade na noite dos conflitos, sejam apelos diligentes à humanidade para que não feche os olhos perante as injustiças e nunca se resigne com os dramas sem conta no mundo”.

“Este país, em que se tocam areia e arranha-céus, continua sendo uma importante encruzilhada entre Ocidente e Oriente, entre Norte e Sul do planeta, um lugar de desenvolvimento, onde espaços outrora inóspitos proporcionam empregos a pessoas de várias nações.”

“Mas o desenvolvimento também tem os seus adversários. E, se o inimigo da fraternidade é o individualismo, como obstáculo ao desenvolvimento apontaria a indiferença, que acaba por converter as realidades florescentes em áreas desertas.”

Caminho de desenvolvimento fecundo
A seguir, Francisco recordou o primeiro Fórum da Aliança inter-religiosa por Comunidades mais seguras, realizado em Abu Dhabi, em novembro passado, sobre o tema da dignidade da criança na era digital.

“Este evento retomou a mensagem lançada um ano antes, em Roma, no Congresso internacional sobre o mesmo tema, ao qual dei todo o meu apoio e encorajamento. Agradeço, pois, a todos os líderes que estão empenhados neste campo e asseguro o apoio, a solidariedade e a participação da Igreja Católica nesta causa importantíssima da proteção dos menores em todas as suas expressões.”

“Aqui, no deserto, abriu-se um caminho de desenvolvimento fecundo que, a partir do trabalho, dá esperança a muitas pessoas de vários povos, culturas e credos. Dentre elas, contam-se também muitos cristãos, cuja presença na região remonta séculos atrás tendo contribuído significativamente para o crescimento e bem-estar do país”, disse ainda o Papa.

Segundo o Pontífice, “a convivência fraterna, fundada na educação e na justiça, e o desenvolvimento humano, construído sobre a inclusão acolhedora e sobre os direitos de todos, constituem sementes de paz, que as religiões são chamadas a fazer germinar”.

Guerra: miséria e morte
“A corrida aos armamentos, o alargamento das respectivas áreas de influência, as políticas agressivas em detrimento dos outros nunca trarão estabilidade. A guerra nada mais pode criar a não ser miséria e morte”, disse o Papa, recordando que os representantes das religiões tem “o dever de banir toda nuance de aprovação da palavra guerra”.

Lembrando as consequências nefastas da guerra, Francisco lembrou países como Iêmen, Síria, Iraque e Líbia.

“Comprometamo-nos contra a lógica da força armada, contra a monetarização das relações, o armamento das fronteiras, o levantamento de muros, o amordaçamento dos pobres. Oponhamos a tudo isto a força suave da oração e o compromisso diário no diálogo.”

“Que o nosso estar juntos hoje seja uma mensagem de confiança, um encorajamento a todos os homens de boa vontade para que não se rendam aos dilúvios da violência nem à desertificação do altruísmo. Deus está com o homem que procura a paz. E, do céu, abençoa cada passo sobre a terra que se realiza nesta direção”, concluiu o Papa.


ÍNTEGRA DO DOCUMENTO

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AOS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS
3-5 DE FEVEREIRO DE 2019

DOCUMENTO SOBRE
FRATERNIDADE HUMANA
EM PROL DA PAZ MUNDIAL E DA CONVIVÊNCIA COMUM

PREFÁCIO

A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela Sua Misericórdia –, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres.

Partindo deste valor transcendente, em vários encontros dominados por uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhamos as alegrias, as tristezas e os problemas do mundo contemporâneo, a nível do progresso científico e técnico, das conquistas terapêuticas, da era digital, dos mass-media, das comunicações; a nível da pobreza, das guerras e das aflições de tantos irmãos e irmãs em diferentes partes do mundo, por causa da corrida às armas, das injustiças sociais, da corrupção, das desigualdades, da degradação moral, do terrorismo, da discriminação, do extremismo e de muitos outros motivos.

De tais fraternas e sinceras acareações que tivemos e do encontro cheio de esperança num futuro luminoso para todos os seres humanos, nasceu a ideia deste «Documento sobre a Fraternidade Humana». Um documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declaração conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas, que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal documento se torne para as novas gerações um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres humanos.

 

DOCUMENTO

Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irmãos, a povoar a terra e a espalhar sobre ela os valores do bem, da caridade e da paz.

Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando que qualquer um que mate uma pessoa é como se tivesse morto toda a humanidade e quem quer que salve uma pessoa é como se tivesse salvo toda a humanidade.

Em nome dos pobres, dos miseráveis, dos necessitados e dos marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a todos os homens e de modo particular às pessoas facultosas e abastadas.

Em nome dos órfãos, das viúvas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus países; de todas as vítimas das guerras, das perseguições e das injustiças; dos fracos, de quantos vivem no medo, dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do mundo, sem distinção alguma.

Em nome dos povos que perderam a segurança, a paz e a convivência comum, tornando-se vítimas das destruições, das ruínas e das guerras.

Em nome da «fraternidade humana», que abraça todos os homens, une-os e torna-os iguais.

Em nome desta fraternidade dilacerada pelas políticas de integralismo e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.

Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela.

Em nome da justiça e da misericórdia, fundamentos da prosperidade e pilares da fé.

Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os cantos da terra.

Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif – com os muçulmanos do Oriente e do Ocidente – juntamente com a Igreja Católica – com os católicos do Oriente e do Ocidente – declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério.

Nós – crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu Julgamento –, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através deste Documento, rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da paz; para intervir, o mais breve possível, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que o mundo vive atualmente.

Dirigimo-nos aos intelectuais, aos filósofos, aos homens de religião, aos artistas, aos operadores dos mass-media e aos homens de cultura em todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justiça, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum, para confirmar a importância destes valores como âncora de salvação para todos e procurar difundi-los por toda a parte.

Partindo duma reflexão profunda sobre a nossa realidade contemporânea, apreciando os seus êxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e calamidades, esta Declaração acredita firmemente que, entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar dos princípios supremos e transcendentes.

Nós, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civilização moderna tem feito nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina, da indústria e do bem-estar, particularmente nos países desenvolvidos, ressaltamos que, juntamente com tais progressos históricos, grandes e apreciados, se verifica uma deterioração da ética, que condiciona a atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar uma sensação geral de frustração, solidão e desespero, levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou então no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego, arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de dependência e autodestruição individual e coletiva.

A história afirma que o extremismo religioso e nacional e a intolerância geraram no mundo, quer no Ocidente quer no Oriente, aquilo que se poderia chamar os sinais duma «terceira guerra mundial aos pedaços»; sinais que, em várias partes do mundo e em diferentes condições trágicas, começaram a mostrar o seu rosto cruel; situações de que não se sabe exatamente quantas vítimas, viúvas e órfãos produziram. Além disso, existem outras áreas que se preparam a tornar-se palco de novos conflitos, onde nascem focos de tensão e se acumulam armas e munições, numa situação mundial dominada pela incerteza, pela decepção e pelo medo do futuro e controlada por míopes interesses econômicos.

Afirmamos igualmente que as graves crises políticas, a injustiça e a falta duma distribuição equitativa dos recursos naturais – dos quais beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos povos da terra – geraram, e continuam a fazê-lo, enormes quantidades de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que são vítimas vários países, não obstante as riquezas naturais e os recursos das gerações jovens que os caraterizam. A respeito de tais crises que fazem morrer à fome milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceitável silêncio internacional.

A propósito, é evidente quão essencial seja a família, como núcleo fundamental da sociedade e da humanidade, para dar à luz filhos, criá-los, educá-los, proporcionar-lhes uma moral sólida e a proteção familiar. Atacar a instituição familiar, desprezando-a ou duvidando da importância de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do nosso tempo.

Atestamos também a importância do despertar do sentido religioso e da necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através duma educação sadia e da adesão aos valores morais e aos justos ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tendências individualistas, egoístas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações.

O primeiro e mais importante objetivo das religiões é o de crer em Deus, honrá-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este universo depende de um Deus que o governa: é o Criador que nos moldou com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o guardarmos. Um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou manipular a seu bel-prazer; pelo contrário, todos devem preservar este dom da vida desde o seu início até à sua morte natural. Por isso, condenamos todas as práticas que ameaçam a vida, como os genocídios, os atos terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que apoiam tudo isto.

De igual modo declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião, para alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes. Por isso, pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão. Pedimo-lo pela nossa fé comum em Deus, que não criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua existência. Com efeito Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.

Este Documento, de acordo com os Documentos Internacionais anteriores que destacaram a importância do papel das religiões na construção da paz mundial, atesta quanto segue:

• A forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum; restabelecer a sabedoria, a justiça e a caridade e despertar o sentido da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gerações a partir do domínio do pensamento materialista, do perigo das políticas da avidez do lucro desmesurado e da indiferença baseadas na lei da força e não na força da lei.

• A liberdade é um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o facto de forçar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam.

• A justiça baseada na misericórdia é o caminho a percorrer para se alcançar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano.

• O diálogo, a compreensão, a difusão da cultura da tolerância, da aceitação do outro e da convivência entre os seres humanos contribuiriam significativamente para a redução de muitos problemas económicos, sociais, políticos e ambientais que afligem grande parte do gênero humano.

• O diálogo entre crentes significa encontrar-se no espaço enorme dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propagação das mais altas virtudes morais que as religiões solicitam; significa também evitar as discussões inúteis.

• A proteção dos locais de culto – templos, igrejas e mesquitas – é um dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e pelas convenções internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais de culto ou de os ameaçar através de atentados, explosões ou demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma clara violação do direito internacional.

• O terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando pânico, terror e pessimismo não se deve à religião – embora os terroristas a instrumentalizem – mas tem origem no cúmulo de interpretações erradas dos textos religiosos, nas políticas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão, de arrogância; por isso, é necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justificações e também a cobertura mediática, e considerar tudo isto como crimes internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial. É preciso condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifestações.

• O conceito de cidadania baseia-se na igualdade dos direitos e dos deveres, sob cuja sombra todos gozam da justiça. Por isso, é necessário empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório do termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a discórdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, discriminando-os.

• O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua indiscutível, que não pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civilização do Oriente remédios para algumas das suas doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e históricas que são uma componente essencial na formação da personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da política de duas medidas.

• É uma necessidade indispensável reconhecer o direito da mulher à instrução, ao trabalho, ao exercício dos seus direitos políticos. Além disso, deve-se trabalhar para libertá-la das pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria dignidade. Também é necessário protegê-la da exploração sexual e de a tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho económico. Por isso, devem-se interromper todas as práticas desumanas e os costumes triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos.

• A tutela dos direitos fundamentais das crianças a crescer num ambiente familiar, à alimentação, à educação e à assistência é um dever da família e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e tutelados para que não faltem e não sejam negados a nenhuma criança em nenhuma parte do mundo. É preciso condenar qualquer prática que viole a dignidade das crianças ou os seus direitos. Igualmente importante é velar contra os perigos a que estão expostas – especialmente no ambiente digital – e considerar como crime o tráfico da sua inocência e qualquer violação da sua infância.

• A proteção dos direitos dos idosos, dos vulneráveis, dos portadores de deficiência e dos oprimidos é uma exigência religiosa e social que deve ser garantida e protegida através de legislações rigorosas e da aplicação das convenções internacionais a este respeito.

Por fim, através da cooperação conjunta, a Igreja Católica e a al-Azhar anunciam e prometem levar este Documento às Autoridades, aos Líderes influentes, aos homens de religião do mundo inteiro, às organizações regionais e internacionais competentes, às organizações da sociedade civil, às instituições religiosas e aos líderes do pensamento; e empenhar-se na divulgação dos princípios desta Declaração em todos os níveis regionais e internacionais, solicitando que se traduzam em políticas, decisões, textos legislativos, programas de estudo e materiais de comunicação.

Al-Azhar e a Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados.

Ao concluir, almejamos que esta Declaração:

seja um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os não-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade;

seja um apelo a toda a consciência viva, que repudia a violência aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões;

seja um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações divididos e eleva a alma humana;

seja um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se amam.

Isto é o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcançar uma paz universal de que gozem todos os homens nesta vida.

Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019.

 

Sua Santidade                                          Grão Imame de Al-Azhar 

Papa Francisco                                               Ahmad Al-Tayyeb

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